Evangelho clandestino (teologia de boteco)

sexta-feira, 17 de julho de 2015

A justificação pela fé e o cumprimento da lei

Falarei dos nossos pecados recorrentes. Você tem lutado contra práticas pecaminosas e sentimentos indesejáveis. Nossa tendência é enfrentar a tentação com as próprias forças. Imaginamos: agora que sou cristão, não posso mais pecar. Mas esse raciocínio está errado. Corrigindo-o, seria assim: agora que sou cristão, posso pecar. Mas como? Paulo escreve em Romanos 8.1: nenhuma condenação há para quem está em Cristo Jesus. O pecado atrai sobre si condenação - a ira de Deus. Quem está em Cristo Jesus, por causa de Cristo Jesus, está em pecado e, por isso, livre de condenação. Convém saber o que é estar em Cristo Jesus e como alguém passa a estar nele. Estar em Cristo é o mesmo que ocupar uma posição. Eu era estrangeiro; agora sou filho. Chegamos a essa posição unicamente pela fé. Ou seja: se creio que estou em Cristo Jesus, estou em Cristo Jesus. A luta que então começa se dá entre o que nós fazemos e a posição na qual fomos colocados: estou em Cristo Jesus (logo estou livre do pecado), mas continuo pecando. Por que continuo pecando? Porque continuo sendo tentado a pecar. Paulo explica, em Romanos 7, que a vontade de pecar é como uma compulsão. Como funciona a compulsão? Eu quero fazer justamente aquilo que não quero fazer. Aquilo que eu mais detesto é o que eu me sinto obrigado a praticar. A vontade de fazer aumenta justamente quando tento não fazer. Na minha cabeça sei que é errado e me condeno por fazer, mas nos meus membros a vontade aumenta de modo incontrolável. Como escapar desse círculo vicioso? Crendo que você está livre da lei, como Paulo diz. É a lei que alimenta a compulsão. Foi dito: eu quero fazer aquilo que A LEI diz que eu não devo fazer. O pecado opera em nós para que não cumpramos a lei. Cristo nos liberta do pecado quando nos liberta da lei. Cristo nos liberta da lei cumprindo-a totalmente em nossa lugar. Quer dizer que nós não precisamos mais cumprir a lei. Ou seja: em última instância, você pode pecar. Nenhuma condenação há - lembre-se. Mas, quando você se dá conta disso - de que pode pecar -, a compulsão a pecar desaparece. Cristo nos liberta da compulsão do pecado. Mas é preciso crer que podemos pecar. Cristo nos dá essa liberdade. A luta que então se estabelece se dá entre a condenação da lei sobre o que fazemos e a verdade de que estamos completamente justificados em Cristo pela fé. Eu peco, mas sou santo. Mesmo pecando, sou santo. Como isso é possível? Unicamente por causa de Cristo. Essa é a justificação pela fé. Crer-se santo para ser santo. Se toda vez que peco, digo que a obra de Cristo não adiantou, nego a cruz. Porque a cruz diz, toda vez que peco, que sou santo, apesar de haver pecado. Não se trata de negar o pecado. Trata-se de crer na redenção de Cristo. Crendo nisso, o pecado perde o poder sobre nós. O pecado, perverso como é - argumenta Paulo -, tem apenas um objetivo: nos fazer negar a cruz de Cristo, quando dizemos que somos ainda pecadores, mesmo sendo santos pelo seu sangue. Não somos justos nem santos pelo que fazemos. Somos justos e santos por causa de Cristo. O domínio que o pecado tinha sobre nós baseava-se na lei. Era o domínio da necessidade de cumprir a lei, o que alimentava a compulsão, como foi dito. Sem a necessidade de cumprir a lei, porque Cristo a cumpriu, podemos pecar, ainda que não precisemos. Mas só alcança essa libertação do poder do pecado quem crê que, mesmo pecando, está limpo pelo sangue do Cordeiro. É a loucura da mensagem da cruz. A liberdade para pecar conduz à liberdade para não pecar. No momento em que você crer que nem mesmo o pecado pode te separar de Deus, por causa de Cristo, o pecado perde o poder sobre sua vida. As quedas podem até acontecer, mas a acusação já não tem lugar, nem a compulsão. A compulsão do pecado é vencida pela fé no perdão irrestrito de Deus. A compulsão do pecado é vencida pela fé na liberdade total em Cristo, que é liberdade para pecar e para não pecar. Quem acha que só é cristão quando não peca ou que precisa parar de pecar para então ser cristão está vivendo debaixo da lei e ainda acredita que o mérito de Cristo não é o bastante, precisando ser complementado pelo mérito pessoal. É primeiro necessário acreditar em Cristo e no perdão que está em Cristo para, com o tempo e com o aumento da FÉ, deixar de pecar. Não deixamos de pecar por um esforço pessoal, mas pela crescente fé no fato de que já somos santos e de que não precisamos mais pecar. Tudo vem pela fé. E fé é antecipar aquilo que ainda não é. Você ainda peca? Pois se veja como alguém que já venceu o pecado e glorifique a Deus por isso. Você agora está colocado nas regiões celestiais em Cristo, sem pecado, porque lavado pelo sangue do Cordeiro. Fixe-se nisso e as obras da carne, pouco a pouco, deixarão de ser praticadas.

sábado, 23 de novembro de 2013

Cristianismo e paganismo

O ocidente é uma criação do cristianismo. A dominação sobre a natureza é a vitória do homem sobre as forças impessoais do meio. As condições para a aquisição do conhecimento que emanciparia o homem do cativeiro da natureza são dadas pela cosmovisão cristã, segundo a qual o mundo é criação de um Deus racional que o sustenta e governa ainda agora. A noção de providência garante que o mundo tem uma ordem (é portanto em si mesmo racional) que pode ser apreendida e manipulada para o bem do homem. Além disso, afirmando que a única coisa digna de culto e de temor é o Deus absolutamente transcendente, o cristianismo anuncia ao homem que nada neste mundo, humano ou não, é objeto de servidão. O homem já não se curva amedrontado diante dos fenômenos naturais nem pode justificar a opressão sobre o próximo em nome do privilégio divino de uma minoria. Nada no mundo é divino. Tudo está submetido ao homem porque foi submetido por Deus a ele. Nenhum homem está submetido a outro porque todos estão submetidos a Deus (1 Coríntios 8.5-6).

A igualdade humana tem um único fundamento: é uma igualdade diante de Deus. A recusa de Deus como fundamento restabelece as variadas formas históricas de opressão. Hoje acredita-se que um retorno ao paganismo seria uma emancipação da opressão do moralismo judaico-cristão e uma substituição da paixão técnica que reifica o homem por uma relação harmoniosa com o cosmo. Mas isso é uma falsificação histórica ou no mínimo uma idealização cristã do paganismo, ou seja, uma idealização do homem emancipado da natureza que pode soberanamente decidir voltar-se a ela. Quem idealiza o paganismo o idealiza a partir dos privilégios legados pelo cristianismo.

O retorno ao paganismo é de fato uma regressão. O cristianismo emancipou o homem do paganismo, isto é, dos inúmeros determinismos do paganismo (Colossenses 2.10-16). No mundo do paganismo o homem é jogado de um lado para o outro pelo capricho dos deuses ou pela irracionalidade cega da natureza, o que dá na mesma. O homem pagão não ama a natureza – só o homem emancipado pode realmente amá-la –, mas a teme. Por isso é obrigado a lhe prestar culto e buscar seu favor sem quaisquer garantias. No mundo do paganismo a proximidade do divino permite que a qualquer momento um grupo tome o seu lugar para oprimir outro (Colossenses 2.8). De fato, divinizar o mundo é multiplicar as oportunidades e justificativas de servidão. 




O humanismo – a excelência do homem, a doutrina do valor do homem – só alcança universalidade pelo cristianismo. O humanismo romano é a garantia dos direitos humanos do romano. Ao passo que o cristianismo nivela a todos em Cristo (Gálatas 3.26-28). É o rompimento espiritual – e portanto núcleo de toda futura teoria crítica da dominação – com todos os vínculos de opressão. O rompimento espiritual precede o rompimento histórico. Os crimes da cristandade sempre decorrem da divinização de um elemento do mundo – um líder religioso, uma autoridade política ou uma instituição social. Os crimes da cristandade já são indícios de um retorno ao paganismo, aos vínculos espirituais de escravidão.

O próprio secularismo é um produto da herança cristã do ocidente. Nas civilizações pré-cristãs, pagãs, autoridade religiosa e estatal era uma só. O culto ao imperador, por exemplo, era a base ideológica da estrutura política do império romano. As injustiças sociais estavam assentadas sobre uma ordem divina inalterável encarnada em homens e coisas diante das quais só era admitido o culto conformado e agradecido. O cristianismo reconhece a desordem do mundo (1 João 5.19) – logo a necessidade de lutar contra ela em nome do reino de Deus – e a atribui ao pecado do homem, ou seja, responsabiliza o homem perante Deus e perante o homem, e assim fundamenta movimentos revolucionários de emancipação. 

A separação entre autoridade religiosa e política vem a se estabelecer com o cristianismo, como separação entre igreja e Estado: dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Novamente o cristianismo, ao negar caráter divino a qualquer elemento do mundo, confere a dignidade própria de cada esfera da ordem criada uma em relação à outra. O Estado pode ser Estado porque não é igreja, e vice-versa. Hoje cristãos e não cristãos andam esquecidos do que é realmente o secularismo e de sua relação com a fé cristã. Hoje o ocidente quer se emancipar do cristianismo sem compreender que isso implica retornar ao paganismo – ou seja, à servidão do paganismo. Trata-se de um processo facilmente verificável: executivos para quem só o dinheiro importa – o que qualquer um consideraria o cúmulo da racionalidade e do materialismo desencantado – cercam-se de pedras, pirâmides e cristais para afastar as “energias negativas” que prejudicariam os negócios. A crença em “energias” é o reencantamento de um mundo desencantado pela força de esclarecimento do cristianismo. Novamente o homem se curva diante dos elementos do mundo. O ocidente, como o filho pródigo, se esquece de sua essência divina, afastando-se do pai, para enfiar a cara nas bolotas de porco.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

A falsa religião é o moralismo


Muita gente, cristãos e não cristãos, acha que o esvaziamento das igrejas europeias se deve a uma vitória do esclarecimento (ou da incredulidade, conforme a perspectiva cristã) sobre as trevas da ignorância (ou a piedade da fé). Trata-se de uma análise equivocada. Secularismo, feminismo, evolucionismo, ateísmo, comunismo: nenhum deles é o maior inimigo da igreja. Nós não precisamos nos preocupar com os homossexuais nem com as mulatas do samba. Os regimes políticos não podem nos calar ou nos amedrontar. Darwin e Freud não esvaziam igrejas.

Nosso maior inimigo somos nós mesmos. Porque, como religiosos, somos constantemente tentados a ceder ao moralismo em nome da preservação dos bons costumes. E não existe nada mais contrário ao evangelho que o moralismo. O moralismo é a falsa religião por excelência, que afasta as pessoas do Deus verdadeiro. Ele resume tudo aquilo que pensamos ser a verdadeira religião. Ora, o ensino de Jesus consistia em mostrar como nós, homens, não sabemos nada a respeito da verdadeira religião; que somos péssimos fundadores de religião.

O moralismo é uma espécie de autoengano pelo qual alimentamos a ilusão de que estamos em dia com aquilo de que acusamos o outro, isso porque nunca paramos seriamente para pensar se realmente estamos em dia. O moralismo é o próprio adiamento da prestação pessoal de contas. Acabamos envolvidos nesse jogo no qual, para fugir de nós mesmos e do reconhecimento das nossas persistentes mazelas pessoais, procuramos um bode expiatório, alguém aparentemente mais sujo que nós. A regra do jogo é essa: ache alguém mais culpado, isto é, alguém com cara de culpado. Por isso o moralista é também conhecido como certinho, santinho e beato. Aos olhos de Deus, o moralista é o pecador que penteia o cabelo e sempre anda com a camisa dentro da calça. É como passar perfume para disfarçar que não tomamos banho desde a semana passada, mas isso apenas em seu aspecto patético.

O moralismo antecipa a sociedade do espetáculo, inventando uma modalidade religiosa do consumo contemporâneo de imagens. Não importa tanto ser justo quanto parecer justo; não importa tanto ser casto quanto parecer casto. O interior do homem é cheio de cobiça, prostituição e maldade, mas ninguém precisa ficar sabendo disso. O moralista vende a imagem de justo e de puro, às custas daqueles que não podem ou querem sustentar essa imagem. Gente tatuada, gente que fala alto, gente como os homossexuais.

Ou seja, o moralista é, no fundo, um falsificador. O moralismo é um tipo de pirataria religiosa. A justiça do moralista não é a própria justiça; a pureza do moralista não é a própria pureza. As virtudes do moralista dependem dos vícios alheios. O moralista se eleva moralmente rebaixando os outros, subindo nas costas dos outros. Contrariando a natureza, ele se comporta como um predador de sua própria espécie, ambientando-se e procurando identificar qual dos membros do bando é o mais fraco. Então ataca. Quantas jovens deixaram a igreja porque ficaram mal faladas? E quem é que as deixou mal faladas? Apartai-vos de mim vós que praticais a injustiça.

A perpetuação do moralismo dentro da igreja exige inúmeras crucificações. O moralismo é a falsa religião porque é a religião do falso bode expiatório. O moralista no fundo não acredita na eficácia da cruz de Cristo como morte substitutiva do pecador que livra do pecado. A conduta inquisitiva do moralista exige que ainda uma vez alguém seja sacrificado. O moralismo, enquanto insiste na necessidade do sacrifício, é uma forma de paganismo. O pagão é aquele que ainda não tomou conhecimento da morte do cordeiro de Deus e que, portanto, se acha refém da natureza e de seus elementos, a quem cultua, associando a fortuna e a desventura à satisfação que o homem pode dar aos deuses. É a religiosidade do medo. O sacrifício é necessário quando o medo é maior que o amor. Não existe moralismo sem a cultura da delação e do medo. Já não somos irmãos, mas guardas de uma prisão.

Mas a maior de todas as desventuras, a raiz mesma delas, de onde nós mesmos parecemos brotar, o mal, permanece incontrolável. Deve regularmente assombrar ao pagão/moralista a ideia de que todos os sacrifícios são inúteis, do contrário não precisariam ser renovados, porque nenhum deles pode apagar o mal. O mal é como uma sombra inapreensível no imaginário religioso do paganismo/moralismo. O mal das colheitas e o mal da enfermidade do filho podem ser contornados. Mas eventualmente a mente, em seu velho vício de abstrair, hipostasia essa entidade assustadora a partir de todas as suas manifestações, surgindo o mal em si mesmo, o mal no homem. O mal como doença, o homem como doença. Chega-se então ao ponto em que a distância entre deuses e homens se torna insuportável. O abismo que separa o divino do humano se alarga, fazendo aumentar o número dos sacrificados.

Um elemento positivo do moralismo deveria ser justamente sua desconfiança em relação ao gênero humano. A princípio, ela livraria nossa antropologia de quaisquer resquícios rousseaunianos. Pena que essa desconfiança sempre tende a se fixar nas outras pessoas, nunca em nós mesmos. A postura do moralista em relação aos demais homens é que ele é a exceção à regra. Os demais homens são corruptos, exceto ele, seja porque ele guarda o sábado e nunca se esquece das abluções, seja porque ele foi lavado e remido pelo sangue do Cordeiro. O conteúdo das justificativas muda, mas a forma viciada de se ver acima do outro é a mesma. O grande inimigo da igreja é a conversão do cristão em fariseu, em moralista. Por mais que nos orgulhemos de ser versados nas escrituras, temos lido mal os evangelhos. Como os escribas, ficamos com a letra e esquecemos o espírito. O moralismo é o sintoma de leituras deficientes dos evangelhos que nos levaram para o outro lado da disputa entre Jesus e os fariseus, entre o espírito e a letra, entre a misericórdia e o sacrifício.

Pois em que momento da história da igreja o alvo da pregação do evangelho deixou de ser a falsa religião e a arrogância dos religiosos e passou a ser as prostitutas, os homossexuais, os pobres e os marginalizados em geral? Em que momento da história da igreja a hipocrisia e o moralismo deixaram de ser os principais obstáculos à nossa entrada no reino de Deus, concentrando-se os pregadores nos pecados sexuais dos outros? Em que momento da história da igreja apagamos das escrituras 1 Coríntios 5.12 e nos transformamos na patrulha moral da sociedade? Hoje em dia os cristãos passam mais tempo se defendendo dos comportamentos de uma sociedade da qual discordam que pregando Jesus e, para se justificar, dizem que denunciar os abusos morais dos outros é o mesmo que pregar Jesus. Ora, trata-se de um terrível engano.

O evangelho nunca começa por qualquer regra de conduta. O evangelho só tem um ponto de partida legítimo – Jesus Cristo: quem ele é, o que ele disse e o que ele fez. O resto – inclusive sua aversão à sexualidade e à tatuagem alheias, meu irmão – é resto. O Espírito ensinará aqueles que têm o Espírito. Mas primeiro é necessário que as pessoas recebam o Espírito e, para isso, é primeiro necessário que elas conheçam Jesus Cristo: quem ele é, o que ele disse e o que ele fez. As pessoas precisam da verdade; mas a verdade não somos nós nem nossos modelos de conduta. A verdade é Jesus Cristo. O problema do moralista é que ele sempre prega a si mesmo como exemplo, e ele é um péssimo exemplo. Talvez a única diferença entre nós e os acusadores da mulher surpreendida em adultério de João 8 seja que nós, alegando estar sem pecado por causa do sangue de Cristo, a teríamos apedrejado.

O moralismo está para o evangelho como a maquiagem está para a juventude. O primeiro tenta simular os efeitos que apenas o segundo pode produzir. Só o evangelho pode realmente transformar uma pessoa. Transformação acontece de dentro pra fora. Mas o moralismo só pode alterar o exterior. Da exterioridade se ocupam também os hipócritas, reduzindo a espiritualidade à encenação. Paulo preferia uma igreja libertina a uma igreja hipócrita. Vide as duas epístolas aos coríntios. Quando digo preferia, me refiro ao evangelho que ele pregou aos coríntios e ao modo como ele enfrentou as dificuldades com aquela comunidade. Ele não exerceu domínio sobre a fé de seus ouvintes. Ele argumentou com eles. Mostrou-lhes que não convinha que se entregassem a quaisquer desejos como escravos. Ele enfatizou a liberdade cristã sob todos os aspectos. Essa liberdade concedida no evangelho nos informa que estamos livres do pecado de uma dupla maneira: somos livres para pecar, porque já não há condenação sobre nós, e para não pecar, porque nascemos de novo e já não somos escravos da velha natureza do pecado. Quem lê entenda. Agora finalmente podemos escolher.

A hipocrisia se alimenta da aparência e do controle sobre a vida alheia. Ao passo que a libertinagem seria um efeito colateral e passageiro (não necessário, mas possível) do processo que conduz as pessoas à liberdade. O único início legítimo do evangelho é a liberdade. A doutrina da justificação pela fé está assentada sobre a nossa total incapacidade de fazer a coisa certa. O novo nascimento é um novo começo. Nossas dívidas foram saldadas na e pela cruz. Gloriar-se na cruz de Cristo, como diz Paulo, é alegrar-se com o fato de que somos justos por causa dele. Já não devemos nada a ninguém. Ou - o que é a mesma coisa - devemos tudo àquele que se entregou por nós, como quem deve a vida ao melhor amigo. É sobre esse tipo de consciência que a verdadeira espiritualidade deve estar apoiada. E não sobre o medo do inferno ou da condenação. Esses são os rudimentos do mundo. Estamos em casa agora.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Teologias passam

Não adiante insistir na teologia reformada como "a" teologia. Toda teologia é circunstancial; toda teologia é um produto da história. Isso quer dizer que ela foi formulada segundo necessidades específicas de uma época específica que talvez já não sejam as necessidades da nossa época. Teologias têm prazo de validade. Elas passam. O que não passa é a palavra de Deus. O que não passa é o Cristo, perfeição da revelação. Insistir em "uma" teologia é demonstrar falta de senso histórico e, portanto, falta de senso missiológico. Em vez de humildemente se curvar às necessidades do outro, que são necessidades da cultura, necessidades do homem, como Jesus fez encarnando e Paulo se fazendo gentio, a gente quer impor a nossa teologia, a nossa cultura, a nossa moral, as nossas regras. Confundimos o anúncio da boa nova com imposição de um estilo de vida. Confundimos evangelismo com imperialismo. 

O grande erro das autoridades religiosas, em todos os tempos e credos, é transformar o contingente em eterno e o humano em divino. O mandamento humano vendido como mandamento divino. Ouviram que o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. Mas entenderam? Hoje o que se vê, da parte de gente bem-intencionada até, é o homem feito para a teologia em vez de a teologia feita para o homem. O propósito de fazer teologia "do ponto de vista de Deus" e assim "combater o humanismo e a secularização" soa lindo, mas no fundo é sinal de que não entenderam o que é teologia. 

O ponto de vista de Deus já está dado: é Jesus Cristo nosso Senhor vindo em carne. Ele é inclusive o humanismo de Deus, humanismo avant la lettre. Agora, o que vem a seguir é como a gente responde àquela pergunta de Jesus aos escribas e doutores da lei: como lês? Como você lê isto - Jesus Cristo nosso Senhor vindo em carne? Esse é o evento, o fato, o objeto a ser lido, a ser teologizado. Esse é o ponto produtor das teologias. E quem é que produz essas teologias? Somos nós, guiados pelo Espírito Santo, conforme as nossas necessidades. O eterno é esse evento. O contingente somos nós. O Espírito nos ajuda a ler conforme o que nos falta. O bororo vai ler o evento segundo as necessidades do bororo. A mãe solteira vai ler o evento segundo as necessidades da mãe solteira. O evento está dado. Nós é que não estamos. Nós e nossas teologias. 

O desastre é fazer da minha teologia a teologia de todo o mundo, a única teologia. A teologia oficial. Imagine o desastre - social, histórico, missiológico - de se enfiar goela baixo no bororo a teologia da mãe solteira. Jesus Cristo nosso Senhor vindo em carne nos termos da mãe solteira não fará o menor sentido para o bororo. O evento se perderá porque não houve adequação cultural, isto é, teológica, ou, como dizem os missiólogos, aculturação. Muita gente se perde só porque a gente não consegue pensar fora das nossas cabecinhas. Inteligência é pensar com a cabeça dos outros. Missão é pensar com a cabeça dos outros. A encarnação é Deus pensando com a cabeça dos outros. Deus pensando com a cabeça da criatura. 

Mas a gente tem nojinho do pós-modernismo. A gente tem nojinho dos movimentos sociais. A gente tem nojinho do movimento LGBT. A gente tem nojinho da nossa geração. Me pergunto se Paulo, chamado apóstolo dos gentios, tinha nojinho dos gentios. A gente quer resgatar os valores de antigamente. A gente quer resgatar a família. Mas pregar o evangelho não é pregar moral e bons costumes. Isso é moralismo. Moralismo é o nome moderno do farisaísmo; o mesmo que crucificou Jesus Cristo nosso Senhor vindo em carne. 

Leiam o começo do capítulo 4 do evangelho de João e prestem atenção no diálogo de Jesus com a mulher samaritana. Ele não pregou contra o pecado dela porque ela já sabia qual era seu pecado. Ele pregou a favor das necessidades dela. Ele pregou a satisfação das necessidades dela. Ele se pregou como satisfação das necessidades dela. Isso é evangelho: pregar Jesus como solução. O pecado é só sintoma. A maioria das pregações é apenas condenação de pecado, isto é, listagem dos sintomas. A causa nunca é apresentada. Muito menos a cura. Falar que Jesus é a resposta e parar por aí é o mesmo que dar um bisturi na mão de uma criança de dez anos e dizer: se vira. Isso pode salvar sua vida, mas você também pode sangrar até a morte. 

Missionários relatam aparições de Jesus para indígenas, que o veem como indígena, e não como um europeu de cabelos compridos e olhos claros. Bom, o uso que fazemos da teologia reformada é o mesmo que empurrar um Jesus de olhos azuis para um indígena. Aliás, é o que fazemos com os negros; é o que fazemos com os orientais. Saudades do patriarcado não vão alcançar esta geração. Não adianta ter saudades de uma idade de ouro, quando as pessoas respeitavam a família e os bons costumes, antes do iluminismo e do secularismo. O mundo jaz no maligno ontem, hoje e sempre. Antes do iluminismo já era ruim. Protestante ressentido com o iluminismo é até absurdo. O iluminismo é apenas consequência do renascimento; e protestantismo e renascimento são unha e carne. O que meus irmãos querem? Um retorno à idade média? À hegemonia cultural da igreja católica? Isto é, o que eles querem é a supressão da "plenitude dos tempos" da reforma? 

Não se trata de fazer apologia do iluminismo, mas de assinalar que a história não para. Ela é movimento, cheia de erros, acertos, crimes e injustiças humanas. E é através dela que a soberania de Deus se exerce, na e pela história. Mas meus irmãos que pregam uma adesão estrita à teologia reformada parecem querer parar a história, parar o movimento, como se duvidassem do controle de Deus sobre ela. A manobra emergencial que adotam é tomar a cabeça do homem da idade média - que é o homem que precisou elaborar a teologia da reforma - e fazer dela a nossa cabeça. Não funciona. O homem da idade média e sua teologia é tão compatível com o adolescente negro da periferia ouvinte de Racionais MCs quanto o bororo é compatível com a mãe solteira. Ou seja, no fundo, há alguma compatibilidade: ambos são gente, seja lá o que isso signifique. Acho que só Deus sabe o que isso significa - ser gente - e por isso mesmo ele é o nosso denominador comum, Jesus Cristo nosso Senhor vindo em carne, e por isso o Espírito é o intérprete autorizado das escrituras.

Mas vamos aposentar a teologia reformada? Muito pelo contrário: vamos dar ouvidos a Paulo e reter o que é bom. Beber da tradição e atualizar a tradição em vista das necessidades desta geração, isto é, nos termos do modo de pensar e de sentir desta geração. Ou falamos sua língua e respeitamos sua cultura - secular, anticlerical, humanista, relativista, transgênero -, ou não seremos ouvidos. Só assim alcançaremos esta geração e qualquer outra. Até quando afastaremos Jesus das pessoas, das culturas, por causa da nossa cultura, da nossa cabeça, da nossa teologia? As culturas - a minha e a sua - passam, mas Cristo permanece. Como você lê isso?

terça-feira, 26 de junho de 2012

História, graça e natureza

A história da salvação é a trama invisível pela qual natureza, graça e história formam uma única torrente saída do trono de Deus. A natureza é o reino das leis inalteráveis, da justiça sumária e da lógica estrita. Nenhuma sentença aceita apelação e toda condenação é imediata. É o domínio da lei. Quando entendemos que a natureza é puramente lei e que a lei é puramente natureza, fica claro que a natureza usurpa o lugar da graça como fonte mantenedora da vida. Nada como a lei pode de si mesmo dar vida. A graça é a doadora e sustentadora da vida. Ela se esconde sob cada evento da natureza com a discrição muda do milagre. Reconhecê-la é aprender que a única realidade é a do milagre. O milagre liberta das execuções inapeláveis da natureza. A suprema alegria da graça é promover exceções à natureza.

Mas a natureza não está em desacordo com a graça. Ela é apenas muito limitada. A graça excede a natureza. A natureza é meramente o aspecto visível ou superficial dos incontáveis milagres que a graça realiza. A natureza insiste na regra; ela mesma é a regra. Mas a graça é a exceção e a vida é um fato da exceção. Que haja vida não é uma necessidade de qualquer coisa. A vida é um dom. Mesmo os incrédulos reconhecem a gratuidade da vida e o admitem dizendo que ela é obra do acaso, resultado de inúmeras condições favoráveis. Ou seja, não podem recusar as noções de gratuidade e favor.

A invisibilidade da graça é a graça tomada como natureza. Os olhos humanos são parte da natureza e servem para apreendê-la. Os olhos da natureza julgam que a graça é invisível, mas a graça simplesmente não é visível segundo os olhos da natureza. Não há argumentos que convençam da existência da graça. Aquele que pede provas no fundo está confundindo a graça com a natureza ou gostaria que aquela se apresente como essa. Ela permanece dissimulada aos olhos daqueles que se agarram à natureza como verdade profunda da existência. É preciso soltar-se da natureza. É preciso acreditar na graça. A fé é um livre ato da vontade totalmente sustentado sobre si mesmo. Nada o nega; nada o suporta. A graça, sendo liberdade, só pode mesmo ser admitida por fé.

A história é o modo como os homens se apropriam, segundo suas necessidades, daquilo que encontram dado. É a confrontação do homem com a natureza. A história é a natureza adaptada às necessidades humanas. O homem deve portanto aprender a colaborar com a natureza e a fazer dela sua colaboradora. Ele deve se reconhecer como parte dela.

No entanto o homem é como uma fresta pela qual enxergamos que a natureza é serva dos propósitos da graça. A história da salvação, ainda que centrada no homem, não se esgota nele.

A santidade de Deus é o fato de ele ser a suprema exceção, sob todos os aspectos, a todas as coisas.

A história da salvação é anterior à história. O princípio da história é a morte do homem. A história começa quando o homem rejeita a graça. Este evento é chamado de queda pela teologia. A queda é a transgressão da lei como recusa da graça. O tempo anterior à queda é um tempo no qual a graça se confunde com a natureza: Deus caminha no jardim que o homem habita.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Crise de identidade #1

Está claro que vivemos uma crise de identidade generalizada. A nossa não é uma sociedade fechada como a de antigamente. Pelo menos na superfície. No passado você sabia aonde deveria chegar em função da família na qual tinha nascido. Seu pai era sapateiro? Então você também seria sapateiro. Seu pai trabalhava na fábrica de pregos do bairro? Então você também trabalharia na fábrica de pregos do bairro. Você casaria porque todo o mundo casava. Você teria filhos porque todo o mundo tinha filhos. Você seria católico e acharia comunismo coisa do capeta porque todo o mundo era católico e achava comunismo coisa do capeta. As peças do jogo eram as mesmas para todo o mundo. Elas se moviam do mesmo jeito.

As possibilidades eram reduzidas e já tinham sido estabelecidas antes do seu nascimento. Você só podia chegar e se sentar à mesa no lugar com o seu nome. Você sabia quem era e que papel ocupava no mundo porque havia uma comunidade inteira para lhe dizer isso. Era uma prisão, mas uma prisão bastante conveniente. Ninguém precisava ter crises existenciais nas quais se perguntava quem era ou o que faria da vida. Você era o que sua família é e iria fazer o que todo o mundo na sua família faz. E ninguém questionava isso. Nem seus professores, nem seus amigos, nem o governo. Na verdade, muito pelo contrário: todos confirmavam o que seu pai lhe dizia. A autoridade era uma só. Todos diziam a mesma coisa. Isso era uma sociedade fechada ou uma sociedade de escolhas limitadas.

Mas nossa sociedade não é essa. Pelo menos na superfície. Diz-se que é uma sociedade de escolhas ilimitadas. Sim, na teoria você pode ser aquilo que quiser ser e fazer o que quiser fazer. Você pode ser filho do padeiro e querer ser sapateiro. Você pode ser filho do policial e querer ser astronauta. (Sim, essas são ocupações muito antigas; reconheço o anacronismo.) A sociedade de escolhas ilimitadas só é limitada pelo dinheiro. Tudo é mediado por ele. Na prática a sociedade de escolhas ilimitadas é na verdade uma sociedade na qual ninguém escolhe abertamente por você. Abertamente. Porque já não precisam. A ilusão da liberdade é mais lucrativa. Mas essa é outra história. Vamos nos concentrar no fato de que aquele mundo fechado acima mencionado rachou e os filhos já não podem se agarrar (nem querem) ao que seus pais acham que é certo. Estamos girando no vácuo. Não sabemos o que queremos porque podemos querer o que quisermos.

domingo, 4 de março de 2012

Um em Cristo

Converter-se é abandonar partidarismos. A situação política na qual transcorreu o ministério de Jesus pode nos ajudar a esclarecer isso. À época de Jesus a Palestina estava sob domínio do Império Romano. Naturalmente a contragosto. Os judeus aguardavam o messias como aquele que os libertaria do jugo de Roma. Portanto só poderiam ver com maus olhos aqueles dentre os judeus que colaborassem com os dominadores. Havia inclusive um grupo de radicais chamados zelotes dispostos a conseguir a libertação de Israel pela via armada. Agora vejamos os doze homens escolhidos por Jesus para dar prosseguimento a sua missão na terra. Nem todos eram pescadores, homens do povo, iletrados. Um deles, chamado Simão, era zelote e outro, chamado Mateus, era coletor de impostos. Eles se encontravam em posições opostas da organização social. O coletor de impostos era uma espécie de representante da dominação romana. Ele fazia o serviço sujo para o Estado romano e ainda se aproveitava disso enriquecendo-se ilicitamente, cobrando mais do que devia, prática comum entre os coletores. Mateus era portanto um traidor, um inimigo do povo. E no entanto Jesus chamou a ambos, o revolucionário e o funcionário público.

A vocação cristã concilia inimigos e os reúne sob um propósito transcendente. O cristão tem prioridades que nada têm que ver com programas partidários. Quase sempre alinhar-se significa restringir a proposta universalista do evangelho. O universalismo e a transcendência do evangelho só podem trazer insatisfação aos politizados. O evangelho exige um posicionamento que os politizados só podem considerar ambíguo. É ficar em cima do muro. Mas não é essa a questão. Jesus separou igreja e Estado, muito antes que o Estado cogitasse assimilar a igreja em seu próprio favor, quando proferiu sua famosa frase: Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Não é a resposta de um alienado, mas de alguém perfeitamente ciente de que os limites da religião coincidem com o da política e vice-versa.

O engajamento político logo dá num beco sem saída. Em algum momento é preciso saltar. A igreja é a comunidade terrena do Espírito Santo. É a comunidade do salto. Seus pés estão plantados no chão, mas seus braços apontam para os céus. O alvo se encontra nas alturas. Nem todos estão dispostos a abraçar tais paradoxos. É mais fácil se entregar ao reducionismo e ao maniqueísmo de esquerda e direita, de militância política e alienação espiritualista, de verdade científica e obscurantismo religioso, de fundamentalismo positivista e fundamentalismo cristão. Colocar-se a favor dos pobres e falar contra os ricos é esquerdismo. Tentar resgatar a busca humanista do equilíbrio é secularismo ou irracionalismo (depende de onde venha o ataque, se dos fundamentalistas religiosos ou cientificistas). O consenso da sociedade de consumo só se rompe por questões totalmente irrelevantes e graças a polarizações obtusas, que ignoram que a realidade é sempre mais complexa.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Morto-vivo

A melhor imagem para o pecado é a do vício. E nós, cristãos, somos viciados em recuperação. A dinâmica do vício é obsessivo-compulsiva. Ela consiste numa fórmula mais ou menos como essa: eu não posso viver sem isto. Isto pode ser qualquer coisa: chocolate, homens, mulheres, televisão, sexo, sucesso, fitness, dinheiro, luxo, status, futebol, etc. Isto é um ídolo. Um ídolo é tudo o que ocupa o lugar de Deus não sendo Deus. É o impostor da divindade ou uma divindade impostora.

A Bíblia diz, pela boca do apóstolo Paulo e de Jesus, que o pecador está morto por causa do seu pecado. Reescrevamos isso substituindo os termos pelas definições anteriores. O viciado está morto por causa do seu vício. Aquele que acha que não pode viver sem chocolate/um corpão/você está morto por causa de chocolate/corpão/você. O vício te matou. Um dos significados neotestamentários para a morte mais recorrentes é escravidão. Reescrevamos o enunciado mais uma vez adaptando-o a mais essa definição. O viciado é escravo do seu vício. Aquele que acha que não pode viver sem chocolate/um corpão/você é escravo do chocolate/um corpão/você.

O pecador é, portanto, retratado na Bíblia como um zumbi. O que é um zumbi? É uma criatura que parece viva, mas que está morta, e que vaga pelo mundo com uma fome insaciável de cérebro. Ou seja, um viciado morto-vivo ou um morto-vivo viciado. Todos nós éramos mortos-vivos viciados.

A Bíblia nos diz que Jesus nos deu vida e nos libertou da escravidão do pecado. Ou seja, ela transformou mortos-vivos em gente de verdade. Ninguém que não tenha nascido de novo é um ser humano de verdade. É apenas a promessa de um ser humano. Isso porque não é livre nem está vivo. É um monstro se fazendo passar por um ser humano. Só Jesus era um homem de verdade. Mas sua morte e ressurreição nos deu o poder de sermos gente de verdade. Quem tem ouvidos para ouvir ouça.

Ainda sobre liberdade

A liberdade, cedo ou tarde, descamba para a libertinagem, por menor que seja. Convém nos corrigirmos e nos aperfeiçoarmos. Leva tempo. Mas a alternativa à liberdade não é melhor nem mais segura. O controle engessa as consciências e conduz à morte. Uma das formas mais disseminadas da morte é a hipocrisia. É o morto se fingindo de vivo. É melhor uma igreja libertina disposta a se santificar que nenhuma igreja. E a igreja é igreja de vivos. Vivos pecam e são perdoados. O evangelho se resume nesta dinâmica. Só os mortos não pecam. Temos gastado muito dinheiro e tempo com verniz. É hora de aprofundarmos a teologia e enfrentar a parte inglória da humanidade. Manter o horror diante dos olhos para então abraçar a graça salvadora de Jesus como resposta. O amor de Deus só faz sentido para gente que dele se aproxima buscando ser perdoado. Os justos não precisam ser amados. Estão esperando recompensas. Quanto a nós - a nossa recompensa é Cristo.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Liberdade cristã

O moralismo está para o evangelho como a maquiagem está para a juventude. O primeiro tenta simular os efeitos que apenas o segundo pode produzir. Só o evangelho pode realmente transformar uma pessoa. Transformação acontece de dentro pra fora. Mas o moralismo só pode alterar o exterior. Da exterioridade se ocupam também os hipócritas, reduzindo a espiritualidade à encenação. Paulo preferia uma igreja libertina a uma igreja hipócrita. Vide as duas epístolas aos coríntios. Quando digo preferia, me refiro ao evangelho que ele pregou aos coríntios e ao modo como ele enfrentou as dificuldades com aquela comunidade. Ele não exerceu domínio sobre a fé de seus ouvintes. Ele argumentou com eles. Mostrou-lhes que não convinha que se entregassem a quaisquer desejos como escravos. Ele enfatizou a liberdade cristã sob todos os aspectos. Essa liberdade concedida no evangelho nos informa que estamos livres do pecado de uma dupla maneira: somos livres para pecar, porque já não há condenação sobre nós, e para não pecar, porque nascemos de novo e já não somos escravos da velha natureza do pecado. Quem lê entenda. Agora finalmente podemos escolher.

A hipocrisia se alimenta da aparência e do controle sobre a vida alheia. Ao passo que a libertinagem seria um efeito colateral e passageiro (não necessário, mas possível) do processo que conduz as pessoas à liberdade. O único início legítimo do evangelho é a liberdade. A doutrina da justificação pela fé está assentada sobre a nossa total incapacidade de fazer a coisa certa. O novo nascimento é um novo começo. Nossas dívidas foram saldadas na e pela cruz. Gloriar-se na cruz de Cristo, como diz Paulo, é alegrar-se com o fato de que somos justos por causa dele. Já não devemos nada a ninguém. Ou - o que é a mesma coisa - devemos tudo àquele que se entregou por nós, como quem deve a vida ao melhor amigo. É sobre esse tipo de consciência que a verdadeira espiritualidade deve estar apoiada. E não sobre o medo do inferno ou da condenação. Esses são os rudimentos do mundo. Estamos em casa agora.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Permanecer na verdade

Há esse grande perigo do qual principalmente quem nasceu de novo não está livre até que este mundo tenha passado, isto é, a incapacidade de se satisfazer com a verdade. A verdade não tem bastado e porque não tem bastado começamos a buscar complementos para ela e então Cristo crucificado já não parece dar conta do que vivemos e do que precisamos. Novas unções e revelações relativas a anjos e homens começam a ser acrescentadas para renovar os corações embrutecidos. A palavra anunciada já não é o suficiente. É nesse momento que corremos o perigo de apostatar. Apostatar é não insistir na cruz de Cristo e na sua suficiência. E não digo que isso seja fácil. É impossível. Permanecer em Cristo - conforme a terminologia joanina - é impossível para aquele que não nasceu de novo. E é preciso nascer de novo repetidas vezes. E só se nasce de novo a cada dia e a cada momento quem insiste na cruz e em sua suficiência. Aqui a argumentação se torna circular, de fato. Isso porque permanecer em Cristo e insistir em sua cruz são senão partes da mesma disciplina espiritual baseada ela toda na fé. Quem mais bem explicou o que é a fé e portanto fez com que ela deixasse de ser mais uma coisa vaga com que pregadores concluem o sermão deixando o mais difícil para sua audiência não foi o autor de Hebreus, apresentando uma definição conceitual extremamente sofisticada no capítulo 11 de seu livro. Não, foi Jesus dizendo aos discípulos que o seu coração pode ser encontrado onde está o seu tesouro. O tesouro de um homem é o objeto de sua mais íntima fé. Isso quer dizer que ter fé em Jesus é colocar o seu coração nele como quem descansa das preocupações da vida porque ainda tem... Muita gente tem completado essa sentença com sua conta bancária. E de fato completa uma sentença a respeito de si mesmo. Mas então aquele que permanece em Cristo e insiste em sua cruz é justamente aquele que esforça seu coração no sentido de este se colocar como um fardo muito pesado é colocado no chão e esse chão onde o fardo se apoia ou é descarregado é Jesus e sua cruz. É dizer ufa! quando diante de declarações como a que lemos no evangelho de João: "Eis o cordeiro de Deus, o que tira o pecado do mundo". Isso tem que ser novo e novamente novo e novamente novo todos os dias e a todo o momento de nossas vidas. A verdade tem que nos bastar. Só o Espírito pode renová-la naquele que a ele se volta pedindo que seu coração seja colocado todo ele sobre a cruz de Cristo.

domingo, 12 de junho de 2011

A torneira continua pingando

Jesus é um problema.

De alguma forma eu sei que ele faz sentido, como minha intuição adverte. Mas ele e as pessoas falando dele e o mundo todo falando dele como fala dele insistem em não fazer sentido, e principalmente algo nele – repito – insiste em não fazer sentido. E não apenas perifericamente, como se fosse um detalhe estapafúrdio, uma declaração indigesta que ele tenha feito aos fariseus, como muitas coisas na Bíblia ferem a nossa sensibilidade extremamente higiênica.

Não, a coisa vai além.

Ele todo é uma promessa que me fizeram desde que eu passei a conscientemente participar da civilização ocidental. É algo com que em algum momento da vida você tem de lidar e então transformar numa escolha. Você vai ter de aceitar ou recusar e passar a viver com o resultado dessa escolha. Ao menos, é isso que idealmente deveria acontecer, mas que naturalmente não acontece. Por uma questão de inteligência, digo que não pude ainda escolher. E ninguém que eu conheça ainda escolheu. Esse é que é problema. Estamos todos adiando essa questão como uma tarefa muito chata que é sempre substituída por coisas muito mais divertidas, já que vivemos num mundo repleto de opções de diversão. Eu poderia culpar o entretenimento e fazer minha duvidosa espiritualidade estar em risco por causa da televisão e da internet. Seria uma covardia plenamente verossímil, mas apenas isso: verossímil. É o tipo de coisa que você ouve e só pode aceitar porque não faltam evidências para tanto, mas que no fundo você sabe que não é exatamente assim.

Isso e o fato de Jesus ser um problema me levam a concluir que a verdade é, nesse mundo, apenas um pressentimento, o que me incomoda muito. Avançamos tanto na capacidade de comunicar, de vender uma ideia, e aquilo que deveria ser a maior das ideias, o mais persuasivo dos argumentos – a verdade –, é tão pouco evidente. Deus deveria dar uma boa olhada em seu departamento de marketing e fazer algumas mudanças. A verdade não passa de uma dor de dente que nos faz acordar no meio da noite, levantar da cama e ir até o banheiro para checar qual é mais ou menos a situação da nossa boca só para, chegando lá, perceber que parou de doer. E a coisa se repete mais umas cinco ou seis vezes durante a vida e só nos volta à memória quando acontece de novo, então lembramos de todas as outras vezes, mas, como a dor para, desistimos e nos convencemos de que não é nada. É a nossa estupidez primordial: considerar alguma coisa nada.

A ciência começa com uma desconfiança desse tipo. Ficamos incomodados com um detalhe e humildemente dedicamos nosso tempo e nossas vidas a dar forma e voz a esse detalhe, tentando justificar a perplexidade infantil que ele nos suscitou. Sem nós, ele poderia muito bem continuar sendo um nada. Podemos ser realmente muito inteligentes quando queremos.

Algumas pessoas choram descontroladamente, estão sentadas num bar ou num café, estão de férias caminhando na praia, sozinhas ouvindo as ondas se lançarem até a praia, e começam a chorar sem saber aonde isso vai dar. Eu não sou dessas pessoas. Acho que chorei apenas quando era criança, porque a verdade é que a minha vida é muito boa. E é assustador, ainda que eu mesmo não me assuste, que o fato da minha vida ser muito boa se deva simplesmente à sorte. Às vezes consigo relacionar a noção de sorte ou uma de suas variantes com essa outra noção a que damos o nome de Jesus. O resultado é um rosto no meio da escuridão, um vulto que, descrito, assustaria uma criança e que, visto, me assustaria. Jesus é certamente isso: um fantasma. E, como somos todos cartesianos, reagimos como um cartesiano reagiria diante de um fantasma: nós o ignoramos. Ele está na sala? Então sentimos fome e vamos para a cozinha fazer um lanchinho. Ele está no quarto? Então resolvemos terminar de ver aquela reprise na televisão, mesmo que tenhamos que dormir mais tarde.

Também me incomoda que Deus esteja tentando falar comigo e com as pessoas através da dor e do choro. Que Deus seja um incômodo. Percebam que eu deliberadamente passei a falar de Deus como se fosse óbvio equacioná-lo com Jesus e tomar um pelo outro a hora que quisermos. Isso também faz parte do mundo ocidental como uma herança a ser elaborada individualmente. Então Deus é uma dor de dente ou um choro descontrolado. Um religioso me corrigiria, dizendo que estes são sintomas da ausência de Deus, ou da falta de Deus. Deus passa a ser uma falta. Um não. Curiosamente isso faz sentido na minha cabeça. Jesus ser um não. Mas também curiosamente eu sou um leitor da Bíblia e li Paulo escrevendo que Jesus é apenas um sim, o eterno sim de Deus aos homens. Faço questão de citar: “O filho de Deus, o Cristo Jesus, que vos anunciamos, eu, Silvano e Timóteo, não foi sim e não, mas unicamente sim. Todas as promessas de Deus encontraram nele o seu sim”. A maioria das pessoas quer ouvir esse sim de Deus. Mas Deus até pode dizer sim, e Jesus ser esse sim dito de Deus, mas Deus em si mesmo é um não. É assim que ele tem sido na minha vida e na vida daqueles que eu mencionei.

Não quero mergulhar a coisa toda na melancolia. Jesus ser um não não é absolutamente insuportável porque é o que tem sido, como eu disse. É a situação atual, que até nos permite refletir sobre o assunto. A autoconsciência é um de seus atributos e, para ser franco, um de seus piores atributos. Se não fôssemos autoconscientes, talvez estivéssemos minimamente abertos para um diagnóstico alheio, mas, ao contrário, afundamos nas nossas próprias conclusões porque, no fim das contas, sei que estamos certos quando percebemos que alguma coisa está errada e que não há nada que possamos fazer. Mas aquele rosto na escuridão ainda me espreita, uma massa se deslocando conforme eu também me desloco, me fazendo retomar todos os cuidados que eu tinha quando, menino, achava que poderia me proteger dos espíritos cobrindo-me com o lençol até o pescoço, sem deixar os braços de fora. Essa era a providência fundamental: minha segurança dependia de cobrir inclusive os braços e os pés. A cabeça podia ficar exposta. Afinal, eu precisava respirar. Ou então, como ouvi de uma amiga minha, que fazia uma barreira de ursinhos e outros bichos de pelúcia em torno de si, na esperança de que eles a defendessem do reino espiritual do desconhecido.

Sinceramente, ainda dependemos dos lençóis e dos ursinhos de pelúcia para nos proteger de Jesus. Desconfio que, para aqueles que nunca viram uma, mas que passaram a vida temendo ver, todas as assombrações são Jesus. Todos os vultos furtivos são Deus. E a vontade de qualquer coisa indefinível que de vez em quando nos assalta e que eu costumava resolver associando-a imediatamente com sorvete, porque eu sempre gostei muito de sorvete, é a vontade de se ver com Jesus e decidir de uma vez por todas o que vamos fazer com ele. Posso responsabilizar a cultura ocidental por isso. Ela sempre foi um evangelista muito competente, porque me convenceu da necessidade de pensar seriamente na possibilidade de que Jesus exista do modo como se diz existir, mas também muito vaga, porque é extremamente difícil passar da pregação para a vida segundo as nossas circunstâncias mais banais e cotidianas. É como tentar consertar uma torneira que pinga recorrendo a Crítica da Razão Pura. De alguma forma, a Crítica da Razão Pura fala também da torneira pingando e, principalmente, de mim tentando consertá-la, afinal a torneira pingando é um fenômeno no sentido que Kant lhe deu e eu mesmo sou uma versão empírica do sujeito cognoscente que vemos ao longo das páginas de sua Crítica. Mas é fácil imaginar que, ao final da leitura de suas quinhentas páginas, devidamente anotadas, a torneira continuará pingando. Então, minha oração a Jesus, supondo que eu lhe desse essa chance e orasse a ele, e estou certo de que muita gente estaria pronta a me acompanhar, seria mais ou menos a seguinte: “Jesus, você que é o caminho, a verdade e a vida: a torneira continua pingando”.

À inscrição numa parede “Jesus é a resposta” alguém acrescenta logo abaixo “Mas qual é a pergunta?”. Muita gente considera isso uma blasfêmia, mas acho que é simplesmente teologia. A vida toda tenho ouvido que Jesus é a resposta, mas ninguém acrescenta para quê. É a pergunta que me interessa. Por isso, Jesus é um problema. Eu assumo o lugar de Pilatos lhe perguntando o que é a verdade. Sei que Pilatos não era a melhor das pessoas e que, no interrogatório e julgamento de Jesus, o cinema costuma retratá-lo como um sujeito muito razoável, que condena o messias a contragosto, e que nós compramos essa sua imagem. Meu Deus, ele era um político! Mas, toda vez que leio o evangelho de João, instantaneamente me identifico com Pilatos, sensibilizado com sua pergunta, que também é a minha e que cada vez mais sinto ser a pergunta mais importante da Bíblia. Ele a fez logo depois de Jesus lhe ter dito que veio ao mundo para dar testemunho da verdade e que quem é da verdade escuta a sua voz. Pois bem, estamos escutando sua voz e ele até pode estar nos dizendo a verdade, mas como saberíamos? A Bíblia relata que, “tendo dito isso”, isto é, tendo perguntado o que é a verdade, Pilatos saiu. A história não continua porque Pilatos saiu. O silêncio de Jesus fez Pilatos sair? Pilatos não esperou tempo suficiente? Se Jesus fez silêncio, era o silêncio já a resposta, como quem quer dizer: “você está me perguntando o que é a verdade; pois bem, eis ela diante de você”? Sim, Jesus é a verdade. Mas eu não entendo Jesus.

Como saber que Jesus é a verdade é mais ou menos o mesmo problema de como saber que Deus existe. E acho que a solução é a mesma, frustrante para a maioria de nós: não dá pra saber. O religioso me diz que eu tenho que tentar. É o que Pascal chamava de aposta. Mas, para topar a aposta, é necessário que eu saiba do que se trata. Estou apostando exatamente no quê? Eu preciso ter uma ideia para, no mínimo, saber que parte de mim eu tenho que investir nisso, afinal não se trata de dinheiro e não é meu bolso que está em jogo; e, se não é meu bolso, mas ainda estamos falando de uma aposta, o que está em jogo? O que eu tenho que apostar? Vão me dizer que é a vida. Mas a vida não me parece uma noção suficientemente universal para fazer frente a Deus. O que estou tentando dizer é que uma pessoa que ouve a palavra vida numa sentença não pensa necessariamente o mesmo que eu e que mesmo o que eu penso hoje pode mudar amanhã. Tem esse verso do Brecht que diz: “A verdade para mim é como uma casa e um carro. E eles me foram roubados”. Eu posso muito bem dizer que a vida é para mim como uma casa e um carro, ou como minha esposa e meus amigos, e estarei sendo até mais exato que o foi Brecht falando da verdade. O fato é que estamos jogando com as palavras, e elas não mentem, mas nós mentimos, porque não sabemos direito por que fazemos o que fazemos com as palavras. Se Jesus é um problema, nós somos o problema.

Muitas sutilezas nos separam de Deus, sutilezas nossas e dele, ou de seus teólogos. Mas reconheço que a maioria de nós simplesmente não está disposta a se envolver profundamente em nada. Contrariaria a tendência geral. A palavra de ordem é “Não se preocupe com isso”. Exigimos facilidades. O esforço generalizado da nossa formação social é criar uma gigantesca democracia de serviços na qual a gente possa consumir tranquilamente sem precisar se envolver. A ideia é justamente a de que se envolver é o tipo de coisa de que avanços tecnológicos e sociais devem nos poupar. Temos que tornar o envolvimento, o engajamento e o compromisso supérfluos, e creio que nunca vivemos no automático como hoje em dia. Deus precisa seguir nesse sentido se quiser ganhar espaço. Ele precisa se reinventar para facilitar a nossa vida. Não acho que queiramos lhe dar um rosto e hospedá-lo em nossa casa, ou mesmo em nosso coração, porque não tem onde dormir. Esse Deus se parece demais com um mendigo. Sua pobreza nos constrange, e o constrangimento é uma forma de abuso que não precisamos mais aceitar.

Mas, ainda assim, quando entardece e a gente contempla os céus, que se espraiam até se perderem em si mesmos, é como se nós acabássemos transportados não sei exatamente para onde, mas convencidos de uma generosidade inesgotável, testemunhada pela natureza. Fala-se no sentimento oceânico, que Freud negava ter sentido, sendo de qualquer forma essa a palavra dele. E mais uma vez dependemos do que dizemos, mesmo quando o assunto é o inefável ou o desconhecido, para onde Deus sempre parece se recolher, não importa o quanto a ciência faça diminuir o tamanho e a profundidade do que não sabemos.

Às vezes, por um momento, rápido demais para ser fixado em palavras, a dor de uma pessoa se mostra a nós, que geralmente precisamos de algum suporte material para resumir o que vemos, como a imagem da cinta com que ela era espancada por seu pai ou a casa onde ela cresceu sofrendo abusos. E se essa pessoa morre ou se vai para longe de nós, permanecemos com essa imagem, na qual encapsulamos aquela vida, que se torna compacta, mas para a qual, toda vez que voltamos a olhar, é como se espiássemos o abismo.

Se Deus é simplesmente um homem, e isso é Jesus, então é difícil saber como ele pode ter um rosto humano, mas ao mesmo tempo esse rosto ser o de todos os homens, de todas as épocas, os bons e os maus, os justos e os injustos, os exploradores e os explorados, os espancadores e os espancados, a vítima e seu algoz, como podemos todos estar nele, que às vezes imagino ser aquele lugar para onde a visão dos céus sem fim nos transporta, o único lugar onde podemos caber todos nós sem ao mesmo tempo ser o pior lugar do mundo. E me faz bem – no fim, é apenas isso, essa sensação, tão desprezada pelos espíritos esclarecidos –, me faz bem a ideia de que em um só homem caiba o mundo todo e a história e as garças e os bêbados e o desespero e a dança e as promessas de felicidade e justiça e o abismo, e que mesmo assim, com tanto peso, esse homem não se dobre, mas permaneça parado, de pé, na escuridão, sem se cansar. É essa sua plenitude?

Bem-aventurados